25 de outubro de 2010

a pata e a leoa

JU LOHMANN

conhece meus erros, menina

sabe dos meus piores feitos
do que empurro pra de baixo do tapete
minhas miragens e loucuras
das curas e vícios
ouve meu sorriso quieto
e ao despetalar em pranto
conhece causa, culpa e espanto
sabe dos meus silêncios, menina
da minha quietude de esquina
do meu bar, do meu bebê
do tropeço que ninguém viu
e que você, comigo, riu
assopra meus pecados
celebremos o vazio jogadas no sofá
segredemos Galeano
Caio Fernando, Clarice
você; minha leoa
me defende enquanto eu me acho
no teu conto de fadas me refaço
por você fui pega pelo braço
e ouvi com força, sem embaraços:
“Ei, sua pata
é assim que se faz laços!”


LARA GAY
divido contigo o pecado de ser eu
aprendendo o silêncio de não estar sozinha
te dou minha mão, te dou meu colo
cure minha insensatez , pata, eu imploro
somos palavras rabiscadas em peitos
nomes tatuados com defeito
entendemos o alívio da imperfeição
rimos no buraco buscando solução
ao seu lado me completo
me desmancho, me entrego
alma gêmea que me cuida
cala a dor do meu passado
vira fera em meu altar
vira anjo pra brigar
recebe a vida que te entrego
no soluço que me engasgo
nosso laço é quase um nó
não desfaz
não desata
uma leoa e uma pata

1 de outubro de 2010

A moça de capricórnio


Ela chegou!
Não existem dúvidas da sua presença
Olhos brilham, corações pulam, sorrisos se abrem
A moça de capricórnio traz suspiros em suas costas
O verde que deságua em sua pele
Lábios grossos que lançam desejos
Cachoeiras de lágrimas
Alívios
Suor
Convida achados e perdidos para a dança da sua cor
Com vida enlaça mortos em seu corpo... de amor
A moça de capricórnio rouba o sol
A cena
O tema
Destrói passados ultrapassados
Revive em paz momentos
Sussurra lamentos
Seca o rastro úmido da baba alheia
A moça de capricórnio controla o vento
Desvia o riso de todo moço
Linda
Ainda que não sinta
Mesmo que não saiba
Ela chegou!
Todos olham ...

(Lara Gay)

23 de setembro de 2010

sábado


não entende minha segura insegurança com a flecha na boca
se fecha pra angústia instalada na garganta
me debulhando em palavras tento impedir a partida
.............................................. parte
fico.
com dúvidas e certezas enforcando o meu dia branco
vazio da sua cor e cheio do nosso amor
grossa forma leve de viver nos extremos
quem vai condenar a intensidade de um peito?
menina exagerada debruçada na janela
ameaçando se jogar pela incompreensão de seu impulso
recua medrosa cheia de covardia
corajosa tentativa fracassada
quer ser aceita sem entender o outro ser
não vale um centavo
é só discurso engasgado
dizem...
vive de poesia e não sabe mostrar que ama
morre por isso
mas continua amando

(Lara Gay)

18 de agosto de 2010

Duas


Bateu na minha porta com a mala na mão
Uma coragem tímida
Eu abri de peito aberto e dei de cara com a dor me sorrindo
Um silêncio sincero. Nada constrangedor. Sincero.
Abracei aquela vida tomando ela pra mim
Emprestei meu colo pros dias solitários
Minhas (milhares de) palavras pras noites de insônia
Aos poucos dividimos risadas, guarda-chuvas e contas
Passamos noites em claro devorando vícios televisivos
Devorando pizzas e brigadeiros
Transformando a monotonia em companhia
Fui aprendendo a ser duas, a ser mais...
Me ensinou a ler os olhos. A mudez da boca.
Me trouxe a paz perdida na desordem
Registros únicos. Focados no momento exato da alegria. Do movimento.
A disputa infantil de quem dorme primeiro
O “boa tarde” assim que os olhos se abrem ao meio dia
Roupas emprestadas. Histórias trocadas. Estradas cruzadas.
Conquistou o seu lugar
Cativou o inexplicável
Tem seus pedaços espalhados na ausência física
A mala foi fechada. Foi embora.
O barulho do silêncio irritante
Meus passos sozinhos pela casa
... É só saudade de ser duas.

(Lara Gay)

4 de agosto de 2010

boba


Costumava se perder dentro dela mesma diversas vezes em menos de um minuto
Concluía lógicas incoerentes do que era aquele furacão sem nome que vivia dentro de si...
... e ria.
Ria delicadamente numa leve loucura assim que mudava de opinião
Contava sonhos pras estrelas com um copo de água na mão e cantava com o rosto enfiado no travesseiro sufocando o choro entalado.
Achava que assim a vida podia ser engolida junto com a dor ao som da sua própria voz abafada
Ela era discretamente exagerada
Era boba, diziam
E assim se sentia
Sua vida era um livro aberto, bem rasurado e com alguns rasgos nos finais dos capítulos
Tudo terminava em reticências... ou não terminava
Tinha aquela flor azul desenhada no cantinho de cada página
É... era boba ela
Constantemente perdia os chinelos no caminho até a praia
Mas sempre encontrava um par de olhos sorrindo pra aquecer seus pés descalços
Desconfiada. Desafinada. Descontrolada.
Sorria sangue
Na sua arisca forma defensiva conquistava cada vez mais almas bêbadas e trôpegas carentes do silêncio de um grito
Molhava o rosto na beira do mar porque não sabia nadar
Dormia de meias (rasgadas) para se proteger do bicho papão
Uma agonia eterna dentro daquele pequeno corpo bobo de menina
Morria com a lua
Respirava através de pausas e suspiros
Sobrevivia ... linda ... viajando sem saber pra onde ir.

(Lara Gay)