Andava pelas ruas com um salto chamativo, tinha um sorriso angelical apaixonante emoldurado por mechas pretas de cabelos lisos, e uma delicadeza em cada gesto que escondia uma maldade opcional dentro de si.
Era apenas uma menina com seus 20 e poucos anos.
Quando a vi pela primeira vez era como se eu caminhasse lado a lado com uma esfinge. Tanto mistério naquela magreza que não consegui sair do labirinto que era a sua vida. Me instigava cada vez mais aquela passarinha da voz afinada. Como podia ser tão livre e santa? Aonde ela guardava seus pecados?
Era apenas uma menina com seus 20 e poucos passos.
Entrei pela porta da frente, completamente aberta pra mim. Invadi seus segredos mais íntimos com a delicadeza de convidada, e fui deixando meus rastros pra ela me achar sempre que quisesse proteção. Deu certo.
Aos poucos conheci o lado humano daquela diva. Entendi o que é sorrir em cima do salto enquanto a maquiagem disfarçava a cara inchada. Bati palmas pro seu passado e com um nó na garganta abracei sua fragilidade. Abri sua caixa de defeitos tão bem escondida que nem ela sabia que ainda tinha. Tão linda e pecadora que sua ingenuidade a tornava pura.
Era apenas uma menina com seus 20 e poucos sonhos.
Um deles bateu à minha porta numa noite ao lado dela. Me surpreendi com tanto sofrimento acumulado, com tanta angústia guardada em um corpo tão pequeno. Guerreira maquiada com um violão embaixo do braço.
Tirou o salto e a maquiagem pra dormir no meu chão, se fez lágrimas discretas com vergonha de cair. Tive vontade de secá-las e dizer pra passarinha que tanta liberdade também pode ser uma prisão, mas preferi ficar quietinha observando aquela dor tão doce que se encostava em meu colo.
Depois de um silêncio confortante entendi que ela só precisava de um carinho, de um toque, de um cuidado.
Era apenas uma menina com seus 20 e poucos medos da solidão.
(Lara Gay)