23 de setembro de 2010

sábado


não entende minha segura insegurança com a flecha na boca
se fecha pra angústia instalada na garganta
me debulhando em palavras tento impedir a partida
.............................................. parte
fico.
com dúvidas e certezas enforcando o meu dia branco
vazio da sua cor e cheio do nosso amor
grossa forma leve de viver nos extremos
quem vai condenar a intensidade de um peito?
menina exagerada debruçada na janela
ameaçando se jogar pela incompreensão de seu impulso
recua medrosa cheia de covardia
corajosa tentativa fracassada
quer ser aceita sem entender o outro ser
não vale um centavo
é só discurso engasgado
dizem...
vive de poesia e não sabe mostrar que ama
morre por isso
mas continua amando

(Lara Gay)

18 de agosto de 2010

Duas


Bateu na minha porta com a mala na mão
Uma coragem tímida
Eu abri de peito aberto e dei de cara com a dor me sorrindo
Um silêncio sincero. Nada constrangedor. Sincero.
Abracei aquela vida tomando ela pra mim
Emprestei meu colo pros dias solitários
Minhas (milhares de) palavras pras noites de insônia
Aos poucos dividimos risadas, guarda-chuvas e contas
Passamos noites em claro devorando vícios televisivos
Devorando pizzas e brigadeiros
Transformando a monotonia em companhia
Fui aprendendo a ser duas, a ser mais...
Me ensinou a ler os olhos. A mudez da boca.
Me trouxe a paz perdida na desordem
Registros únicos. Focados no momento exato da alegria. Do movimento.
A disputa infantil de quem dorme primeiro
O “boa tarde” assim que os olhos se abrem ao meio dia
Roupas emprestadas. Histórias trocadas. Estradas cruzadas.
Conquistou o seu lugar
Cativou o inexplicável
Tem seus pedaços espalhados na ausência física
A mala foi fechada. Foi embora.
O barulho do silêncio irritante
Meus passos sozinhos pela casa
... É só saudade de ser duas.

(Lara Gay)

4 de agosto de 2010

boba


Costumava se perder dentro dela mesma diversas vezes em menos de um minuto
Concluía lógicas incoerentes do que era aquele furacão sem nome que vivia dentro de si...
... e ria.
Ria delicadamente numa leve loucura assim que mudava de opinião
Contava sonhos pras estrelas com um copo de água na mão e cantava com o rosto enfiado no travesseiro sufocando o choro entalado.
Achava que assim a vida podia ser engolida junto com a dor ao som da sua própria voz abafada
Ela era discretamente exagerada
Era boba, diziam
E assim se sentia
Sua vida era um livro aberto, bem rasurado e com alguns rasgos nos finais dos capítulos
Tudo terminava em reticências... ou não terminava
Tinha aquela flor azul desenhada no cantinho de cada página
É... era boba ela
Constantemente perdia os chinelos no caminho até a praia
Mas sempre encontrava um par de olhos sorrindo pra aquecer seus pés descalços
Desconfiada. Desafinada. Descontrolada.
Sorria sangue
Na sua arisca forma defensiva conquistava cada vez mais almas bêbadas e trôpegas carentes do silêncio de um grito
Molhava o rosto na beira do mar porque não sabia nadar
Dormia de meias (rasgadas) para se proteger do bicho papão
Uma agonia eterna dentro daquele pequeno corpo bobo de menina
Morria com a lua
Respirava através de pausas e suspiros
Sobrevivia ... linda ... viajando sem saber pra onde ir.

(Lara Gay)

30 de julho de 2010

juliana

"pequena menina (de) virgem
de vargem grande
a FON(te) SECA sem a sua presença
constante

me leva na (p)alma da mão
numa fala dA TUA aÇÃO
cura minha loucura na travessura da sua doçura
na raridade de uma amizade embriagada de lealdade

infinita essa beleza
(in)certeza inocente
Indecente esperteza
favorita confidente"

(Lara Gay)

6 de julho de 2010

Pintura


Me mudando no mesmo lar
Trocando os móveis de lugar
Rabiscos velhos ganhando cor
Tintas sujando a mão do pintor

Surge o branco em letras rimadas
Somem nomes nas paredes pintadas
Latas vazias de tom azulado
Escondendo as pistas do antigo culpado

Roupa manchada procurando pincéis
Jornais espalhados entre outros papéis
Renovando a alma, colorindo a vida
Pintando com calma, tapando a ferida

(Lara Gay)