20 de junho de 2011

Marca na vida. Marca na pele.


Minha vida não é só minha
Do que valeria uma vida toda pra dentro, toda pra si?
O que a torna importante para mim são seus acontecimentos, são os sorrisos divididos, são os abraços silenciados.
Meus significados não são só meus
Não consigo me lembrar de nada marcante que eu tenha vivido sozinha
Eu sempre tive uma mão me segurando ou uma risada completando
Isso pra mim é viver
Quando me perguntam por quê minhas tatuagens são “minhas com alguém”, não hesito em responder que essas pessoas cativaram e cultivaram o que existe de mais lindo em mim, e aceitaram o que existe de mais podre no meu ser.
Ser amada quando você menos merece é uma dádiva.
Esses meus anjos sem asas me amaram, me aceitaram e me cuidaram.
- E se um dia você brigar com essas pessoas?- me perguntam
- E quem disse que eu nunca briguei? – respondo achando graça
Faz parte do que é a amizade, faz parte do amor e da preocupação.
Se um dia, por alguma razão, a vida me separar das marcas que tenho na pele, me consolarei com nossas lembranças que me fizeram ser quem sou hoje.
E quando a saudade doer demais me olharei no espelho e, entre lágrimas, abrirei um sorriso com a resposta pro meu maior medo... "Não, Lara, você nunca vai estar sozinha!!!"

(Lara Gay)

9 de junho de 2011

No seu dia


No vazio da espera
O dia é seu e a dor é minha
Querendo ouvir a voz que não me fala mais
Sonhando com a risada que acordava a minha ressaca
Dançando a música que não é mais nossa
Aonde está você agora?
Por onde andam nossos anos de espera?
Na eterna dúvida do seu signo ou no medo que te puxa pela mão?
Abraço a solidão esperando a sua volta
Sem intenção de ferir, firo a mim e a quem vem
Sem querer me condeno por ainda te querer
Minto pro meu corpo que o seu cheiro ainda existe
O armário guarda as suas roupas na espera da sua pele
Seus chinelos passeiam em meus pés brincando de me fazer companhia
São seus olhos me beijando quando fecho os meus pra beijar alguém
Estúpida devassa que se negava no passado
Chora agora, branquela, chora até secarem essas lágrimas de saudade
E você, por que voltou depois de tanto tempo?
Pra me lembrar que nosso ódio é desejo?
Não volte mais sem me amar, menino
E não me faça te implorar que um dia volte me amando
Eu o faria!
Que o meu amor por você não me doa mais que o ódio que sinto por mim
Que o nosso tempo não tenha se desperdiçado, despedaçado, desencontrado
Ainda te encontro em sonhos... bons sonhos, menino.

(Lara Gay)

1 de maio de 2011

No banco de um filme



Sabe o romantismo de parques no outono?
Então, nesses filmes os meus bancos são solitários
Tem sempre um espaço vago do meu lado esquerdo
Ninguém senta. Ninguém nem olha.
Alguns passantes até examinam ao longe
Outros arriscam uma encostadinha de leve
Às vezes um esbarrão pra ver a minha reação
Mas aquele que senta sem medo ainda não passou pelo parque
Aquele que quer ocupar o lugar e dividir o jornal ainda não entrou nesse filme
Procura-se um protagonista!!
Coadjuvantes que só se sentam para esperar o próximo ônibus não são bem vindos.
Os que só estão fazendo hora por não ter nada a fazer também podem passar bem longe daqui, tá?
Me contento com as folhas secas caindo ao meu lado enquanto isso
(elas são mais leais que certos pedestres)
Começou a chover.
Tão bom quando a água vem lavar o meu vazio
Afinal, é necessário limpar o rastro dos incertos para a chegada do determinado
Continuo sentada escrevendo minha história, lendo um bom livro, rindo de mim
Meu protagonista não vai falar nada.
Ele chega, senta, me olha, sorri e me tira dali.
Porque um banco de praça só é feliz quando o casal vai embora e só ficam os casacos.

(Lara Gay)

20 de abril de 2011

Pesadelando...



Quando tudo não passar de um pesadelo, me nina enquanto choro?
A menina que eu sou se manifesta na solidão do apartamento
Apertando a boneca procurando um colo pra descansar
Cansada das esquinas tão perdidas que já caiu
Caindo no silêncio que se encontra em algum copo
Com um pouco de sono e muito de sede
Se der, me dê um beijo na face
Fazendo carinho nos cachos embaraçados pelo suor do sonho ruim
Ri de mim!
Pode rir da meia rasgada
Da camisola manchada
Engasgada de saliva eu me reviro pra te ver rindo
Vindo em minha direção com a proteção que eu tanto preciso
Nina a minha menina, menino?
Cuida dela e não se esqueça de mim?
Me toque sem medo
Me dando a certeza de que sou sua agora
Com a segurança dos olhos abertos
De um sonho real que se sonha acordado

(Lara Gay)

10 de abril de 2011

Aos anjos de Realengo


Pra onde vai, criança inocente?
Impediram a sua passagem pela estrada de pedras amarelas?
Sangraram seus sonhos pelo chão de onde se aprende.
De risadas ingênuas aos berros de desespero.
A saudade escorrendo pelo rosto de quem sente.
A dor de mãos dadas pra aliviar o sofrimento.
Seus cadernos ficaram na mesa esperando o ponto final da sua história.
A pureza foi massacrada deixando rastros na porta da sala.
Nas mãos do selvagem, a marca da infância, o fim de um começo, a crueldade de um ser não humano.
Lembranças se perderam no futuro de quem seria.
Manhã escura numa quinta ensolarada.
Te empresto minha paz para que durma num sonho bom.
Para que viva em sua morte sem pesadelos como esse.
Não chore mais, criança inocente.
A culpa não foi sua.
O céu está em festa enquanto a Terra é o inferno.
Bem-vindos, anjos.

(Lara Gay)