1 de maio de 2011

No banco de um filme



Sabe o romantismo de parques no outono?
Então, nesses filmes os meus bancos são solitários
Tem sempre um espaço vago do meu lado esquerdo
Ninguém senta. Ninguém nem olha.
Alguns passantes até examinam ao longe
Outros arriscam uma encostadinha de leve
Às vezes um esbarrão pra ver a minha reação
Mas aquele que senta sem medo ainda não passou pelo parque
Aquele que quer ocupar o lugar e dividir o jornal ainda não entrou nesse filme
Procura-se um protagonista!!
Coadjuvantes que só se sentam para esperar o próximo ônibus não são bem vindos.
Os que só estão fazendo hora por não ter nada a fazer também podem passar bem longe daqui, tá?
Me contento com as folhas secas caindo ao meu lado enquanto isso
(elas são mais leais que certos pedestres)
Começou a chover.
Tão bom quando a água vem lavar o meu vazio
Afinal, é necessário limpar o rastro dos incertos para a chegada do determinado
Continuo sentada escrevendo minha história, lendo um bom livro, rindo de mim
Meu protagonista não vai falar nada.
Ele chega, senta, me olha, sorri e me tira dali.
Porque um banco de praça só é feliz quando o casal vai embora e só ficam os casacos.

(Lara Gay)

20 de abril de 2011

Pesadelando...



Quando tudo não passar de um pesadelo, me nina enquanto choro?
A menina que eu sou se manifesta na solidão do apartamento
Apertando a boneca procurando um colo pra descansar
Cansada das esquinas tão perdidas que já caiu
Caindo no silêncio que se encontra em algum copo
Com um pouco de sono e muito de sede
Se der, me dê um beijo na face
Fazendo carinho nos cachos embaraçados pelo suor do sonho ruim
Ri de mim!
Pode rir da meia rasgada
Da camisola manchada
Engasgada de saliva eu me reviro pra te ver rindo
Vindo em minha direção com a proteção que eu tanto preciso
Nina a minha menina, menino?
Cuida dela e não se esqueça de mim?
Me toque sem medo
Me dando a certeza de que sou sua agora
Com a segurança dos olhos abertos
De um sonho real que se sonha acordado

(Lara Gay)

10 de abril de 2011

Aos anjos de Realengo


Pra onde vai, criança inocente?
Impediram a sua passagem pela estrada de pedras amarelas?
Sangraram seus sonhos pelo chão de onde se aprende.
De risadas ingênuas aos berros de desespero.
A saudade escorrendo pelo rosto de quem sente.
A dor de mãos dadas pra aliviar o sofrimento.
Seus cadernos ficaram na mesa esperando o ponto final da sua história.
A pureza foi massacrada deixando rastros na porta da sala.
Nas mãos do selvagem, a marca da infância, o fim de um começo, a crueldade de um ser não humano.
Lembranças se perderam no futuro de quem seria.
Manhã escura numa quinta ensolarada.
Te empresto minha paz para que durma num sonho bom.
Para que viva em sua morte sem pesadelos como esse.
Não chore mais, criança inocente.
A culpa não foi sua.
O céu está em festa enquanto a Terra é o inferno.
Bem-vindos, anjos.

(Lara Gay)

3 de abril de 2011

morena


me dê seu tempo em tempo de tê-la, morena
não desespere uma lágrima pra esse momento hostil
és bela em todos os tons
és doce de se querer sempre mais
de qualquer forma
com qualquer pose
me espere ao lado da cama
nós quatro em mãos e na lama
riremos do que se passa agora
morena do sangue que me corre sem saber
somos a família que eu sempre quis ter
nem tente fugir da união que formamos
estás segura em quatro peitos gritando de amor
mesmo no silêncio do que não se sabe agora
depois, no abraço de alívio, a despedida da dor
tudo vai ficar bem na correria desse dia
confia na tua força e na tua garra de mulher
morena, é rara a nossa sintonia
estamos juntas pro que der e vier

(Lara Gay)

12 de março de 2011

Minha Sombra

Não sou um jogo de palavras trocadas no meio do álcool
Até que me queiram por inteira, deixem minha metade longe dessa bagunça
A gente arrisca o que se sente mesmo que custe a cara a tapa
Então me bata até que sua posse ensangüente suas mãos
É assim que você me quer?
Em seus papéis rasgados antigos?
Ou na sua cama esmagada por uma ressaca de tantos anos?
Sempre foi assim mesmo...
Você escolhendo o presente e eu esperando o futuro
Então faz o seguinte, engole o seu ciúme num cuspe seco sóbrio de nós
(que nunca foram desatados, por sinal)
E agüente o meu caminho sendo escolhido por mim mesma
Não quero mais fazer parte desse carrossel de mil bocas
Me perder em várias mãos nunca foi meu próximo passo
Sou mais minha que sua, mesmo que me doa em todas as partes
(algumas delas espalhadas na sua varanda)
Todo ser humano tem uma sombra, e o único jeito de acabar com ela é apagando a luz.

(Lara Gay)